quinta-feira, 13 de março de 2014

VEMM SOLUÇAR COMIGO - fevereiro 2014 - renata

""Todo filho é pai da morte do seu pai.""    (F.Carpinejar)


""Feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede dele um pouco a cada dia.""


Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido:   é quando o filho se torna pai do seu pai.     É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa.     Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força a nossa mão já não tem força pra se levantar sozinho.
É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair do seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava,, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde a janela.     Tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar a própria roupa, e não lembrará dos seus remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida.     Aquela vida que nos gerou depende da nossa vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.     Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez.     Nosso último ensinamento.     Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.     E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos nossos móveis para criar os nossos pais.     Uma das primeira transformações acontece no banheiro.    Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.     A barra é emblemática.     A barra é simbólica.     A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores.     Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.     A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filho s nas paredes.     Nossos braços estão espalhados, sob a forma de corrimões.     Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escadas mesmo sem degraus.     Seremos estranhos em nossa residência.     Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação.     Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados.     como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?     Nos arrependemos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependemos de cada obstáculo e tapete.
E feliz do filho que é pai do seu pai antes da sua morte, e triste do filho que aparece no enterro e não se despede um pouco por dia..
Meu amigo, acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.     No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando meu amigo gritou da cadeira:
- Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.
Colocou o rosto do seu pai contra o seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer; pequeno, enrugado, frágil, tremulo.
Ficou segurando por um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado pro outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrando:
 - Estou aqui, estou aqui, pai !
O que um pai quer ouvir no fim da sua vida é que seu filhos está ali.




-   este texto foi copiado de um link de uma filha que se afastou do pai desde 2009 , estamos em 2014, nas tentativas de contato teve uma última, foi quando a filha lhe disse pra não tornar a ligar pro seu telefone pois ela seria obrigada a trocar o numero na operadora.



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